O que eu era não se adequava ao cenário nem as plantas e animais que ali moravam. Não que eu fosse ruim ou o lugar e as pessoas, mas aquele definitivamente não era o meu lugar. Eu precisava mudar e não tinha a menor idéia de como começar. Hoje, eu penso, aqui sentada em meu alpendre entre devaneios mornos, plantas e beija-flores, que demorei demais tomando decisões. Fiz pessoas sofrerem a expectativa do futuro, mas isso é ingrediente básico da vida. Absolvo-me deste crime completamente. Eu sei o porquê do medo corroendo meu peito na época. Tinha medo de abandono. Sou filha adotiva e carrego esta carga psicológica. A solidão se tornava um monstro obscuro. Eu me perguntava, e agora? Quem vai me amparar?Quem para me amar? Não foi fácil começar de novo com mais de quarenta anos pesando nas costas. Casamento é coisa séria, dizia minha mãe. Não é brincadeira não, dizia meu pai. Depois vêm os filhos e você está amarrada para o resto da vida. É, eles tinham razão e eu com dois filhos, não podia ficar só pensando em mim. Só de pensar em mim eu já me sentia egoísta. E ela que eu ouvia tanto me deixou sozinha para tomar decisões. Não era a hora de você resolver morrer mamãe. Fiquei seis meses em um hospital vendo minha querida mãe murchar como uma flor. A dor que eu sentia envenenava qualquer sonho. E eu tinha que resolver se acabava ou não com um casamento que já havia terminado à pelo menos 10 anos. Não vem ao caso os pormenores que levaram ao término deste, mesmo que de pormenores não tinham nada, mas eu em vinte anos de casamento me sentia sozinha, velha e sem importância. O que eu havia feito pra mim? O que eu havia feito com minha vida? Por que não dão valor pra tudo o que fiz? Quem eu era? E agora sem pai e sem mãe em um mundo que eles não me ensinaram a enfrentar. Os filhos adolescentes não precisavam mais tanto de mim e aí eu me dei conta que só fazia para os outros, e havia esquecido de mim mesma. A vida havia passado como um rio à minha frente e eu continuava no mesmo lugar, sentada ali, olhando e chorando minhas dores. Meu Deus, o tempo passou e nem se quer me dei conta. O espelho já delatava minha idade e as pessoas estavam a muitos barcos à frente. Tomei uma garrafa de vinho chileno e melhor ainda, tomei a decisão de me separar definitivamente. Não seria fácil, mas desta vez faria tudo por mim. Tenho que dizer que deste momento até a minha saída de casa foram-se dois anos. Sim, fui eu quem saiu e deixei meus filhos lá com o pai deles. Conversamos e na época meu filho me disse entre lágrimas: Mãe é hora de você ser feliz. Eu achei que lá eles estavam seguros e podiam seguir suas vidinhas em frente, mais confortáveis e continuei mesmo assim, a buscar todo dia na escola e nós passávamos o fim de semana juntos.Comprei um apartamento perto deles com o dinheiro que minha mãe deixou pra mim e comecei a trabalhar como massoterapeuta em uma clínica próxima. Eu queria recomeçar por mim mesma e não pedi nenhuma ajuda de custo e nem nada para meu ex-marido. Não achei direito fazer isso já que ele estava cuidando e muito bem das crianças. Esta foi a primeira etapa de minha nova vida.

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