domingo, 19 de fevereiro de 2012

Beldroegas



Perguntaram-me qual o prato preferido. Oh dúvida cruel... Gente, eu como quase tudo, se for bem feito é claro. Evocar um restaurante e aquele prato inesquecível? Confesso que raramente vou a restaurantes e não guardo nenhum momento daqueles que ficam registrados para sempre na memória gustativa. Seria talvez presunção da minha parte dizer que na minha casa “come-se bem”. Talvez porque, de vez em quando, tenho algumas reclamações, sobretudo quando faço alguns dos pratos tradicionais que não correspondem aos gostos do marido. Desde pequena fui iniciada na tarefa de cozinhar porque as mães não abandonavam essa qualidade que as filhas deviam levar para a sua missão de donas de casa. Eram receitas simples e tradicionais de uma casa modesta, de uma família mineira de descendência italiana. Nesse tempo a variedade de produtos não era grande e o abastecimento de verdes e frutas fazia-se no mercado, duas vezes por semana. A maioria dos alimentos vinha mesmo era do quintal de casa ou do mato mesmo... A carne resumia-se ao frango, ovos e às vezes, uma carne de boi de segunda. Carne de boi de primeira, porco e peixe eram coisas para visitas ou dias de domingo. Nessa época nós morávamos em São Paulo e carne de porco e peixe eram artigos muito caros. Meu pai não podia com esses luxos. Quando eu ia visitar minha avó Virginia em Minas, lá numa cidadezinha chamada Miraí, eu podia comer comidas maravilhosas, praticamente todas, hoje, viraram mato na concepção das pessoas: ora-pro-nobis, cansanção, serralha, beldroega, taioba, umbigo de bananeira, cariru, cará moela, jenipapo, marmelo, tamarindo, Jatobá e outros tantos que só gente de interior e mesmo assim os mais velhos é que conhecem.Alguns produtos comuns na cozinha desapareceram do mercado porque deixou de existir a coroa de hortas que rodeava as cidades. Entre elas conta-se a beldroega (Portulaca oleracea L.), planta espontânea muito comum nas hortas e que é atualmente considerada uma infestante das culturas. Assisti a um programa da Rede Minas outro dia pelo Youtube, chamado Trilhas do sabor onde  dois temas me chamaram atenção : Matos comestíveis e Comidas em extinção. Fiquei contente de ver que tem pessoas ainda lutando para que certas qualidades de plantas voltem a nossa mesa. Quem gostar de temas culinários recheados de história boa assista a estes programas que eu tenho certeza que não se arrependerá. Uma viagem pela gastronomia mineira com suas tradições cultura e saberes. Trilhas do Sabor conta histórias que passam pelas cidades de Minas com seus fogões à lenha e rodas de prosa de comadres e compadres. Quem comanda o passeio é o cineasta, fotógrafo e cozinheiro Rusty Marcellini.
O universo da cultura gastronômica vai muito além de receita. Conheça a tradição e a criatividade do povo de Minas Gerais, que desenvolve sua gastronomia a partir do que a terra dá, misturando a esses elementos seu tempero, sua simpatia e o saber que vem de outras gerações.
Mas voltando ao assunto, eu  tenho a sorte de um pé de beldroega ter vindo parar em um dos vasos das minhas plantas e, assim, todos os anos por altura do verão, tenho beldroega.Aqui em casa no quintal ainda tenho ora- pro- nobis e Taioba que preparo fresquinhas e suculentas. Meu marido diz que só como mato e que isso é comida de bicho, mas Mineiro é assim... Fazer o que...
Dica: Experimente a beldroega ao alho e óleo. E coma com frango, polenta, no macarrão...

Você também pode misturar suas folhas e talos picados com tomate, cebolinha, temperando com sal, limão e azeite - fica um delicia!
Resolvi procurar uma receita e achei essa que é de Portugal , mas cabe perfeitamente ao nosso gosto. Receita do Alantejo, Sopa de Batata com Beldroega:

“É muito simples. Então, faz-se assim: refoga-se cebola e dentes de alho picados em azeite; em seguida juntam-se as batatas cortadas em cubinhos, os raminhos e folhas das beldroegas e deixa-se refogar um pouco; junta-se água e tempera-se com sal, colorau e folha de louro. Quando as batatas estão cozidas, abrem-se ovos que se deixam escalfar. Garanto que é muito bom. A receita que dei é como a minha mãe fazia. Mas claro que haverá variações, como poder levar tomate ou ser enriquecida com queijo de cabra.”
Achei outra receita um pouquinho mais elaborada veja:
“ Sopa de beldroegas na minha terra faz-se com tudo em cru em camadas dentro da panela. Fio de azeite no fundo e batata e as beldroegas e cabeças de alho inteiras (tantas quantas as pessoas que gostarem de as comer assim) com a casca (só se tiram as peles de fora para irem limpas para a panela). As beldroegas arranjam-se tirando às que já têm o olhinho do meio que é o que faz a sopa amargar. Tapa-se de água e mais um pouco (conforme se é para comer assim ou com sopas de pão). Quando está quase cozinhado deita-se os ovos abertos que escalfam no caldo. Serve-se de preferência deitando a sopa numa tigela por cima de sopas de pão fininhas e só depois se serve para os pratos.Esta é a forma como se faz na minha terra. Cá em casa faço assim ou algumas vezes mais rica porque acompanhada com queijo de cabra o que liga maravilhosamente. Serve-se a sopa no prato com o ovo no meio e de lado uma fatia do queijo. “
Einstein dizia que entre duas teorias para explicar o mesmo fenômeno, provavelmente a mais simples seria correta. Acredito que o mesmo se dá com as receitas culinárias. Esta sopa deve ser muito saborosa.
Olha só o que um site de plantas medicinais fala sobre ela:
A Beldroega é considerada uma planta refrescante. A beldroega tem valiosos minerais, vitaminas, e grande quantidade de ácido salicílico. Em infusões é tônica e depurativa do sangue.
É empregada internamente contra disenteria (principalmente infantil), enterite aguda, mastite e hemorróidas. As folhas são utilizadas contra cistite, hemoptise, cólicas renais, queimaduras e úlceras.
Suas folhas têm propriedades diuréticas e refrescantes. Aplicadas sobre as feridas favorecem a cicatrização e, em decocções, combatem as inflamações dos olhos. Colocando-se folhas de beldroega debaixo da língua ajuda a acalmar a sede.
As folhas também podem ser aplicadas como compressas para acalmar hematomas e inflamações nos olhos.
As sementes são vermífugas poderosas e excelentes emenagogas. O suco é particularmente efetivo, internamente ou externamente no tratamento de doenças de pele.
Indígenas das Guianas usam-na contra diabetes, para problemas digestivos e como emoliente e, externamente, como ungüento para problemas musculares.
Estudos clínicos têm mostrado que esta planta é rica fonte de ácido graxo Omega-3, substância importante na prevenção de infartos e no fortalecimento do sistema imunológico. Devido a presença de catecolaminas em seu extrato aquoso verificou-se também uma ação relaxante na musculatura.
Viu quanta coisa boa? Um simples matinho que você pode ter lá no fundo de sua casa, em algum vaso, ou mesmo nascendo em canteiros na sua rua pode te trazer benefícios além de ser um saboroso alimento... Um viva aos matinhos !!!!



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